O massacre em Gaza e a nova (des)ordem mundial
Enviado em 21 de Janeiro de 2009
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Por Dimitri Martins
Um dos livros que eu recomendaria a todas as pessoas que querem entender o nosso mundo contemporâneo é o livreto Para a paz perpétua, de Immanuel Kant (1795). Neste pequenino livro se encontram as bases para a formação daquilo que foi a fracassada Liga das Nações (em 1919) e por fim, a ONU (1945). Para a paz perpétua é um livro fundamental pelo nobre ideal que o norteia e que eu chamo de “o sonho kantiano”, uma federação cosmopolita de Estados que regulariam-se uns aos outros pela via do consenso. Os objetivos dos Estados seriam atingidos pela política, e não pela guerra, pela força bruta. Em termos de teoria das Relações Internacionais, isso é muito sinteticamente o que se chama de “liberalismo”.
Infelizmente, na minha opinião, o que vemos no início do século XXI é um evidente fracasso desse modelo. A negociação vem sendo substituída pela força. Novos atores vêm se insurgindo no macro-contexto global, como as organizações terroristas, novos atores que as teorias clássicas da Relações Internacionais não conseguem enquadrar em seus antigos modelos teóricos.
O “marco” da “virada realista” é a “The National Security Strategy of the United States” (Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos) de 11 de setembro de 2002, na qual discursos como o “Destino Manifesto” da nação americana têm o seu retorno garantido e é o primeiro fundamento daquilo que viria a ser a invasão do Iraque, em 20 de março de 2003, sem o respaldo das Nações Unidas, violando gravemente a ordem liberal pós-Segunda Guerra Mundial.
Esta “virada realista” porém não é tão “realista” assim. Os poderosos Estados enfrentam guerras contra novos atores, os quais exigem um novo modelo teórico-analítico de compreensão, ainda a se desenvolver, principalmente dentro dos novos paradigmas das Relações Internacionais, tendencialmente pós-positivistas.
As guerras da primeira década do século XXI ilustram bem a “virada” que houve no cenário internacional. Os Estados Unidos enfrentam sem vencer, uma guerra no Afeganistão com a Al-Kaeda, e a invasão do Iraque beira os seis anos, com uma surpreendente resistência de milicianos iraquianos, que impõe uma pesada derrota a George W. Bush, que foi o presidente com menor popularidade de todos os tempos nos Estados Unidos.
Por seu lado, Israel enfrentou duas guerras, uma contra o Hezbollah, em 2006, que teve como saldo a perda de 1200 vidas e o fortalecimento do grupo terrorista, e agora enfrenta o Hamas em Gaza, nesta altura com quase 1000 mortos no lado palestino.
A situação no Oriente Médio se complicou quando o governo palestino se dividiu em dois, com o partido Fatah, do atual presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, que aceita negociar a paz e o Estado palestino com Israel, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, uma organização considerada terrorista por países como Estados Unidos, Canadá e Japão e pela União Européia, controlando a Faixa de Gaza.
Gaza é uma faixa de terra com um território equivalente a um quarto da área do município de São Paulo (menos de 500 km²), e com uma população de 1,5 milhão de pessoas, é um dos territórios mais densamente povoados do planeta. A guerra em Gaza tende a se tornar “uma carnificina inútil”. É imoral a desproporção entre as forças tecnológicas de Israel e as armas artesanais do Hamas e a população faminta e indefesa da região.
A guerra movida por Israel tende a ser “um fim em si mesmo”, para justificar a própria existência Israel tende a inverter o que ensinou Clausewitz, e ao invés de fazer primeiro a política, e por fim a guera, faz agora a guerra, para acabar – tomara – na política e na negociação. Uma outra razão para esta guerra é o fim do governo George W. Bush, célebre aliado da política israelense; com a chegada da incógnita Obama e com uma eleição para o próximo mês, os políticos não querem arriscar.
O Hamas também só tem a ganhar com esta guerra, porque a força brutal e desproporcional de Israel só vem a legitimar a “causa” do Hamas, que não só é uma organização política, como fundamentalista religiosa, tal como o talibã do Afeganistão.
De tudo isso, fica evidente o fracasso do sistema internacional em resolver uma questão como esta somente pela negociação. A potência dos Estados fica evidente em momentos como esse, quando os Estados Unidos sozinhos vetam uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas para exigir o cessar-fogo na região. O fracasso do sistema internacional também é evidente em relação ao genocídio perpetrado em Darfur, no Sudão, do qual a mídia global parece nada falar.
Na aurora do século XXI, vemos um retorno da política da potência, na qual Estados poderosos se sobrepõe em forças ao sistema internacional, e vemos a ascensão de forças sub-estatais, que lutam contra os Estados, como nas guerras dos Estados Unidos contra “o terrorismo” e de Israel contra o Hezbollah e o Hamas. Não sei como se configurará o cenário internacional nos próximos anos, mas o que me parece cada vez mais claro é a instauração de uma “nova ordem” ou uma “verdadeira desordem” no cenário mundial, para o qual a Comunidade Internacional, ainda habituada aos antigos modelos liberais, parece não ter se atentado. E enquanto isso, milhares morrem, enquanto muitos jogam.
Pessoalmente, eu nunca acreditei na sobrevivência de um idealismo como o kantiano como real possibilidade de descrição do (ou projeto a ser perseguido para o) sistema de nações. Talvez tenha passado pela cabeça de um ou outro governante/político/representante d’uma ou d’outra grande nação, mas como todo idealismo, acabou por ruir sobre si mesmo diante da realidade crua do que está, de fato, em jogo no tênue e tenso (dês)equilíbrio de poder do plano internacional.
Não houve uma virada “realista”, ou uma substituição da negociação pela força. A realidade concreta do poder foi, como tem sido deste que houveram relações internacionais: tempos de desenvolvimento econômico e emersão dos idealismos, que então se mostraram facilmente abandonáveis diante de crises. Não é que o uso da força “tomou o prumo” das relações entre os atores do plano internacional, simplesmente nunca, em nenhum momento, houve algo diferente disto.
Ao fim, fico cansado de todo texto sobre RI terminar com a afirmação de que os anos que vem pela frente trazem uma “nova ordem… blá… blá… blá”. É preciso notar a mudança no eixo de poder como uma continuidade de ordem, um processo de retroalimentação do sistema antigo sobre novas bases, e não como algo novo - não há nada novo em trocar um centro hegemônico por outro durante um processo de crise sistêmica do modelo de acumulação atual. Afinal, ainda temos as classes capitalistas mundiais exigindo proteção e ação dos governos nos momentos de crise, mas resistindo à eles nos momentos de bonança. Ainda temos capitais migrando de circuitos de acumulação puramente financeira para a base mais sólida da produção, ainda que em outra parte do globo.