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O massacre em Gaza e a nova (des)ordem mundial

Por Dimitri Martins

Um dos livros que eu recomendaria a todas as pessoas que querem entender o nosso mundo contemporâneo é o livreto Para a paz perpétua, de Immanuel Kant (1795). Neste pequenino livro se encontram as bases para a formação daquilo que foi a fracassada Liga das Nações (em 1919) e por fim, a ONU (1945). Para a paz perpétua é um livro fundamental pelo nobre ideal que o norteia e que eu chamo de “o sonho kantiano”, uma federação cosmopolita de Estados que regulariam-se uns aos outros pela via do consenso. Os objetivos dos Estados seriam atingidos pela política, e não pela guerra, pela força bruta. Em termos de teoria das Relações Internacionais, isso é muito sinteticamente o que se chama de “liberalismo”.
Infelizmente, na minha opinião, o que vemos no início do século XXI é um evidente fracasso desse modelo. A negociação vem sendo substituída pela força. Novos atores vêm se insurgindo no macro-contexto global, como as organizações terroristas, novos atores que as teorias clássicas da Relações Internacionais não conseguem enquadrar em seus antigos modelos teóricos.
O “marco” da “virada realista” é a “The National Security Strategy of the United States” (Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos) de 11 de setembro de 2002, na qual discursos como o “Destino Manifesto” da nação americana têm o seu retorno garantido e é o primeiro fundamento daquilo que viria a ser a invasão do Iraque, em 20 de março de 2003, sem o respaldo das Nações Unidas, violando gravemente a ordem liberal pós-Segunda Guerra Mundial.
Esta “virada realista” porém não é tão “realista” assim. Os poderosos Estados enfrentam guerras contra novos atores, os quais exigem um novo modelo teórico-analítico de compreensão, ainda a se desenvolver, principalmente dentro dos novos paradigmas das Relações Internacionais, tendencialmente pós-positivistas.
As guerras da primeira década do século XXI ilustram bem a “virada” que houve no cenário internacional. Os Estados Unidos enfrentam sem vencer, uma guerra no Afeganistão com a Al-Kaeda, e a invasão do Iraque beira os seis anos, com uma surpreendente resistência de milicianos iraquianos, que impõe uma pesada derrota a George W. Bush, que foi o presidente com menor popularidade de todos os tempos nos Estados Unidos.
Por seu lado, Israel enfrentou duas guerras, uma contra o Hezbollah, em 2006, que teve como saldo a perda de 1200 vidas e o fortalecimento do grupo terrorista, e agora enfrenta o Hamas em Gaza, nesta altura com quase 1000 mortos no lado palestino.
A situação no Oriente Médio se complicou quando o governo palestino se dividiu em dois, com o partido Fatah, do atual presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, que aceita negociar a paz e o Estado palestino com Israel, que controla a Cisjordânia, e o Hamas, uma organização considerada terrorista por países como Estados Unidos, Canadá e Japão e pela União Européia, controlando a Faixa de Gaza.
Gaza é uma faixa de terra com um território equivalente a um quarto da área do município de São Paulo (menos de 500 km²), e com uma população de 1,5 milhão de pessoas, é um dos territórios mais densamente povoados do planeta. A guerra em Gaza tende a se tornar “uma carnificina inútil”. É imoral a desproporção entre as forças tecnológicas de Israel e as armas artesanais do Hamas e a população faminta e indefesa da região.
A guerra movida por Israel tende a ser “um fim em si mesmo”, para justificar a própria existência Israel tende a inverter o que ensinou Clausewitz, e ao invés de fazer primeiro a política, e por fim a guera, faz agora a guerra, para acabar – tomara – na política e na negociação. Uma outra razão para esta guerra é o fim do governo George W. Bush, célebre aliado da política israelense; com a chegada da incógnita Obama e com uma eleição para o próximo mês, os políticos não querem arriscar.
O Hamas também só tem a ganhar com esta guerra, porque a força brutal e desproporcional de Israel só vem a legitimar a “causa” do Hamas, que não só é uma organização política, como fundamentalista religiosa, tal como o talibã do Afeganistão.
De tudo isso, fica evidente o fracasso do sistema internacional em resolver uma questão como esta somente pela negociação. A potência dos Estados fica evidente em momentos como esse, quando os Estados Unidos sozinhos vetam uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas para exigir o cessar-fogo na região. O fracasso do sistema internacional também é evidente em relação ao genocídio perpetrado em Darfur, no Sudão, do qual a mídia global parece nada falar.
Na aurora do século XXI, vemos um retorno da política da potência, na qual Estados poderosos se sobrepõe em forças ao sistema internacional, e vemos a ascensão de forças sub-estatais, que lutam contra os Estados, como nas guerras dos Estados Unidos contra “o terrorismo” e de Israel contra o Hezbollah e o Hamas. Não sei como se configurará o cenário internacional nos próximos anos, mas o que me parece cada vez mais claro é a instauração de uma “nova ordem” ou uma “verdadeira desordem” no cenário mundial, para o qual a Comunidade Internacional, ainda habituada aos antigos modelos liberais, parece não ter se atentado. E enquanto isso, milhares morrem, enquanto muitos jogam.

A ressurreição do Estado

Por Dimitri Martins¹

No ano de 2008, uma significativa “virada” aconteceu no cenário da economia globalizada e integrada. Quando Sarkozy vai à televisão publicamente defender a re-organização de um capitalismo organizado, nos moldes do capitalismo dos “Trinta Gloriosos Anos” é porque o chamado “neoliberalismo” de fato acabou.

Se o socialismo ruiu sobre si mesmo na manhã de Natal de 1991, o “neoliberalismo” do “there is no alternative” ruiu na segunda-feira negra 15 de setembro de 2008. O historiador Hobsbawm, em entrevistaà BBC á alguns dias atrás, afirmou: “Todos concordam que, de uma forma ou de outra, o Estado terá um papel maior na economia daqui por diante. Qualquer que seja o papel que os governos venham a assumir, será um empreendimento público de ação e iniciativa, que será algo que orientará, organizará e dirigirá também a economia privada. Será muito mais uma economia mista do que tem sido até agora”.²

Ou seja, o mundo passa por um momento de inflexão na economia mundial que é o do retorno ou a ressurreição do Estado. Se as décadas de 1980 e 1990 assistiram ao retorno triunfal do liberalismo pré-crise de 1929, em virtude do colapso soviético, e da crise do Welfare State; nós agora assistimos ao retorno do Estado em virtude da crise financeira global, fruto do fracasso da desregulamentação e liberalização financeira. Ainda bem que there is alternative, porque senão rumaríamos à barbárie completa nos próximos meses.

Uma pergunta se insinua no ar: qual é o tamanho necessário do Estado?

Estado e mercado co-existem no globo desde o século XV, com o contínuo e crescente desenvolvimento de ambos, que floresceram no ocaso da civilização medieval. Estado e Mercado são duas realidades típicas da civilização moderna, existem um dependente do outro. Não existe Estado sem Mercado e vice-versa (como a crise nos mostra). O problema - na minha opinião – é que Estado e Mercado cresceram tanto que começaram a imiscuir-se um nos assuntos do outro – e um querendo dominar, e por fim suplantar o outro. Como afirmou Octavio Ianni “toda a controvérsia do século XX foi o dilema entre planejamento e mercado”. Penso que o colapso soviético e a crise de 2008 mostram que as posições extremas estatalistas ou mercandizantes estão equivocadas, o ideal não é nem um Estado mínimo – neoliberal – nem um Estado máximo – totalitário -mas um Estado justo.

E o que viria a ser um “Estado justo”? A justiça – nos ensina o velho Aristóteles – é dar a cada um o que lhe é de direito, e em primeiro lugar, uma das prerrogativas do Estado é a de zelar pela segurança dos povos que estão em seu territórios. Ora, regular e regulamentar o mercado é zelar pela segurança das nações, velar para que os povos não sejam vítimas da ganância cega de quem quer que seja, é papel do Estado (o que não significa assumir a economia nem impedir a economia de funcionar).

Esta crise foi previsível. É, como afirmou Dupas, “uma profecia auto-realizável”. Qualquer um que conhecesse um pouco de economia internacional ia perceber que o fato do valor dos derivativos em circulação nas bolsas de valores ser mais de quatro vezes o valor do PIB real, iria produzir algum resultado catastrófico, em breve.

A euforia neoliberal já havia cessado no início desta década, depois da crise que varreu Ásia, Rússia, Brasil e Argentina. Agora que a crise chegou ao coração do sistema, parece que o neoliberalismo recebeu a sua última pá de cal. O que virá a seguir? Ninguém sabe, eu penso que uma economia mais mista; o capitalismo sim, prosseguirá, sem pirotecnias e experimentalismos que vitimaram mais de cem milhões no século passado, mas a euforia neoliberal, de mercados totalmente livres, como ídolos de barro, prometendo a felicidade e o bem-estar geral, isso acabou na segunda-feira negra, 15 de setembro.

¹ Dimitri Martins é mestrando em Administração pela Universidade Federal da Bahia e membro do LABMUNDO.

² http://www.atarde.com.br/jornalatarde/economia/noticia.jsf?id=989964

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